Beleza
A Beleza Importa
No nosso dia a dia, em especial se vivermos na cidade, estamos rodeados de feio – ruído permanente, má arquitetura, guerras, palavras desagradáveis, pessoas que preferem ser vistas como feias, em vez de reflexo de uma beleza que as ultrapassa. Tudo isto contribui para termos o semblante fechado e o coração pesado, e a não vivermos gratos por tudo quanto recebemos. Precisamos de nos rodear do Belo para podermos recuperar o sorriso.
Voltar os olhos para a Natureza é uma das formas mais simples, e ao mesmo tempo mais ricas, de contemplar o Belo. O Planeta Terra, e tudo quanto nos dá, é uma manifestação extraordinária de uma beleza transcendente. As suas leis, o modo como funcionam tão maravilhosamente os seres vivos; tudo isto é expressão de uma sabedoria e criatividade infinitas.
Há muitas maneiras de contemplar a Natureza. A que sugiro não é talvez a mais evidente, mas pode ser um convite adequado para dias de frio e chuva, acompanhados de um chocolate quente ou de um chá e uma manta: ver um documentário. O que proponho já tem alguns anos, é de 2009, realizado por Yann Arthus-Bertrand e intitula-se Home. As suas imagens levam-nos a viajar por todo o planeta, como se fossemos um pássaro, numa altura em que filmagens com drones não eram ainda muito comuns. Percorre paisagens tão variadas como a grandeza de cones vulcânicos, a magia das cores dos lagos de Yellowstone, os nevoeiros fantasmagóricos das florestas ou a imensidão dos oceanos. Também nos transporta a pequenas povoações perdidas no meio do deserto, onde se vive da mesma forma há milhares de anos, e aos arranha-céus de Nova Iorque e do Dubai. A lentidão com que as filmagens são apresentadas, a música, magistralmente produzida para as acompanhar, e a voz suave do narrador, criam um ambiente de contemplação e deslumbramento, a que é difícil resistir.
O documentário equilibra a magnificência do planeta Terra e a beleza do que o ser humano tem feito, com um convite à reflexão sobre as consequências do mau uso dos recursos do planeta e o egoísmo de quem tem em excesso – fome, destruição de ecossistemas, acumulação de lixo, esgotamento de recursos. Tudo isto é o feio causado pelo mal, que contrasta com o Belo, que é manifestação do Bem e da Verdade. Algumas afirmações sobre a origem humana das alterações climáticas são discutíveis, mas acabam por se diluir numa constante mensagem de esperança, alicerçada numa fé inquebrantável no génio e na grandeza do ser humano que, apesar das suas fraquezas, tem conseguido transformar as dificuldades e desafios em oportunidades de crescimento e melhoria.
Mais do que uma proposta para que se sentem em casa a ver um documentário, que vale mesmo a pena, o meu desejo é que aproveitem todas as oportunidades para se deslumbrarem verdadeiramente com a Natureza. Na magnificência das montanhas, na infinitude do mar ou na abóbada celeste repleta de estrelas. Mas também nos pequenos pormenores em que o nosso olhar cai - a Lua que brilha entre os prédios da cidade, a pequena planta que cresce no meio das pedras da calçada ou a borboleta que poisa na janela.
Roger Scruton (1944-2020, filósofo, escritor e crítico social inglês) escreveu e falou muitas vezes sobre a importância da beleza nas nossas vidas, identificando o seu desaparecimento e a pouca importância que lhe damos como um dos grandes problemas das sociedades modernas. Nas palavras deste autor, sem uma procura consciente da beleza, arriscamo-nos a cair num mundo de prazeres que causam dependência e em que já não se percebe bem por que vale a pena a vida humana. Identificou com muita clareza a importância do Belo e da sua contemplação, e denunciou sem medo todos os cultos do feio que hoje encontramos. Os seus textos e palestras são um constante desafio. No entanto, falhou numa coisa. Para ele, a Beleza era um valor último, que deveria ser procurado por ele mesmo, sem que se lhe tivesse de dar nenhuma razão adicional, colocando-o ao lado da Verdade e do Bem. Infelizmente para ele, ficou na companhia dos insensatos identificados no Livro da Sabedoria como sendo aqueles que “a partir dos bens visíveis, não foram capazes de descobrir aquele que é (...).”[1] Espero que cada um consiga, não só encontrar paz e descanso na contemplação da Natureza, mas mais do que isso “(...) aprendam quão mais belo que tudo é o Senhor, pois foi o próprio autor da beleza que os criou.”[2]
[1] Livro da Sabedoria, XIII, 1.
[2] Livro da Sabedoria, XIII, 3.
Isabel Carmo Pedro
Barry Lyndon
Há obras que transcendem o ramo artístico em que se inserem - há filmes que transcendem o cinema - Barry Lyndon é um deles.
Quando penso neste clássico dos anos 70, o que me vem à cabeça não são apenas cenas de um filme: são os quadros setecentistas pintados por Gainsborough e Constable e que inspiram toda a estética do mesmo; é a música épica de Handel que irrompe de forma brutal e
imponente logo no primeiro ato; são os grandes escritores oitocentistas como William Thackeray, autor do romance em que se baseia o guião…
…e quando penso em Stanley Kubrick não penso num mero cineasta, penso num artista genial e polivalente que redefiniu a sétima arte. Além de realizador - seu ofício principal e pelo qual ficou conhecido - Kubrick era um ávido leitor (a maioria das suas longas-metragens são inspiradas em obras que revelam um gosto literário eclético e apurado – desde Nabokov a Stephen King); foi um talentoso fotógrafo (aos 20 anos, chegou a realizar uma reportagem fotográfica em Portugal cujo resultado vale a pena procurar conhecer) e ao longo da sua filmografia, que atravessa as décadas de 50 a 90, foi revolucionando o cinema não só através de uma apurada sensibilidade artística sempre surpreendente, mas também por um rigor técnico e um perfeccionismo quase obsessivo. Era ainda um apaixonado pela música, chegando a contrair uma fixação de adolescente pelo jazz, interesse que mais tarde redirecionou para a música erudita. Nos seus filmes não poupava recursos a gigantes compositores como Beethoven, Strauss, Rossini, Shostakovich, que contribuíram postumamente para a criação de cenas absolutamente icónicas na história do cinema.
Torna-se evidente que Kubrick procurava incansavelmente a Beleza nas suas várias modalidades e, em 1975, conjugou brilhantemente todas estas expressões criativas - literatura, pintura, música, fotografia – numa só quando resolveu presentear a humanidade com os 185 minutos de Barry Lyndon. Mas afinal o que contemplamos ao longo destas mais de 3 horas?
Colocando em termos simples e concretos, mas sem querer adiantar demasiado do filme para os sortudos que ainda têm pela frente a experiência de o ver pela primeira vez, esta epopeia dos ecrãs é sobre a aventura do jovem Barry Lyndon num período delicado da existência humana. É sobre os múltiplos desafios, interiores e exteriores, que se lhe vão sendo apresentados, acompanhando também as suas reações, nem sempre as mais sábias e prudentes, adiante-se.
No entanto, se fosse de outra forma, de que modo nos identificaríamos com o protagonista?
Remontando ao período da guerra dos Sete Anos (momento histórico cuja complexidade o narrador do filme sintetiza assim “It would require a greater philosopher and historian than I am to explain the causes of the famous Seven Years' War in which Europe was engaged”) são abordados temas como a família, o amor, a traição, o exílio, a guerra, a deserção, a ascensão social, a solidão, a miséria e podíamos continuar… Em Barry Lyndon, poucas são as facetas da natureza humana e da sua experiência civilizacional que ficam por explorar; e é através desta vasta gama de temáticas abordadas que o filme nos ensina uma bela lição: além de ser possível encontrar Beleza onde menos esperamos (na guerra, na solidão, nos momentos de profunda escassez), é também nos núcleos onde mais contamos com a sua presença - nas relações românticas e na família, célula fundamental da sociedade - que nos podemos deparar com a sua maior ausência. Não devemos nunca dar por garantidas estas relações, pois a sua corrupção é fácil e especialmente trágica. Exige-se da nossa parte um esforço ativo, constante e diligente para que aqueles eixos que na nossa vida devem, em primeira instância, ser fontes daquilo que é Bom, Belo e Verdadeiro, assim permaneçam sempre. Assim, através desta tragédia embelezada aprendemos com o mau exemplo de uma personagem que claramente não tem este cuidado, protagonizando situações extremamente nocivas para si e para os que o rodeiam como o amor proibido pela sua prima Nora, o abandono repentino da sua viúva e frágil mãe, e o trato excessivamente indulgente para com o seu filho.
Alerta: o ritmo é lento, espaçado, antagónico a tudo o que a audiência moderna e os seus 15 segundos de attention span possibilitam. Afinal estamos a falar de arte, e não de mero entretenimento. Mas vale a pena o desafio, nem que seja pela dramaturgia deliciosa dos diálogos, pelas belíssimas cenas rurais e paisagens naturalistas que somos convidados a admirar e pela fotografia satírica e picaresca (Kubrick transforma-se num autêntico William Hogarth que troca o pincel por uma lente de 50mm); tudo isto ao som de melodias barrocas como aquela da estrondosa “Sarabande” de Handel (mandatório ouvir em alto e bom som).
Assistir a este espetáculo audiovisual é muito mais que uma experiência cinematográfica: é uma apreciação multissensorial do Belo – e a Beleza conduz-nos sempre, independentemente da nossa consciência de tal fenómeno – ao que é Bom e Verdadeiro.
Pedro Santos Oliveira
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10ª Edição
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9ª Edição
Maternidade
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8ª Edição
Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior, de Maurice Ravel
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7ª Edição
Grandiosidade e Grandeza
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6ª Edição
A esperança é a última a morrer
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5ª Edição
Às nossas queridas mães
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4ª Edição
Wonder: cada pessoa merece ser admirada e tem uma missão a cumprir
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3ª Edição
Um olhar auspicioso
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2ª Edição
A Beleza que não morre
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1ª Edição
Os homens são como os rios