Beleza
Beleza Inquietante
A série de ficção científica “Night Sky”, da Prime Video e realizada por Holden Miller, tão depressa foi para o ar como foi cancelada ao fim de apenas uma temporada composta por oito episódios de cerca de uma hora. No entanto, não obstante a sua curta longevidade, demonstrou compensar na qualidade performativa (os veteranos actores Sissy Spacek e J.K. Simmons asseguraram-se disso) e profundidade introspectiva.
Quando a “descobri”, passados intermináveis minutos de “scrolling”, não sabia que esta já tinha sido cancelada, ou seja, que estava prestes a dedicar-me por inteiro a algo que estava condenado a não satisfazer os meus desejos. Ironicamente, era exactamente esse o tema central desta série: o conflito entre a mortalidade da existência humana e a imortalidade dos desejos da alma.
A história segue o dia-a-dia, aparentemente pacato e sossegado, do casal de reformados Franklin e Irene York. No entanto, eles têm um segredo: no quintal da sua casa, descendo as escadas improvisadas que construíram dentro de um velho barracão e seguindo um pequeno túnel escavado na terra, têm um portal para as estrelas, literalmente. Acontece que o casal York tropeçou num mecanismo, que eles próprios não compreendem bem, mas que os transporta daquele velho barracão na Terra, para uma sala num planeta não identificado, onde são presenteados com uma visão do Universo transcendentalmente bela (arrisco mesmo a dizer, uma visão, metafórica e literalmente, de outro mundo).
A série depois vai-se desenvolvendo lentamente, introduzindo novas personagens e explicando, em parte, o porquê daquele portal estar ali e para que funciona. No entanto, como foi cancelada e não teremos respostas finais, vou deixar esses pormenores para os mais curiosos e masoquistas entre vocês irem ver por vossa conta, e vou antes focar-me naquilo que já descrevi: o casal York a observar as estrelas.
Este início da série trouxe-me automaticamente à memória a forma como Arthur C. Clarke começa a sua obra 2001: A Space Odissey (o livro e não o filme). Apesar da ideia ser uma de intervenção alienígena na evolução do ser humano, esses mesmos aliens escolhem um grupo específico de primatas onde veem potencial, porque um deles, que Clarke apelida de Moon-watcher, ao contrário dos outros, observa o céu estrelado. E é este levantar do olhar da terra para o céu, do material para o imaterial, que está na origem da inteligência e do espírito e que precede o exclusivamente humano, “porquê?”. Também o casal York fita o Universo em busca de sentido, mas a postura de um e outro em relação à realidade deste omnipresente “porquê?” é dramaticamente diferente.
Franklin encara o mistério que aquela beleza inspira com aceitação e serenidade, Irene, por outro lado, questiona-se incessantemente, o seu espírito controlado pela convicção de que “tem de haver algo mais”. Receber a dádiva, maravilhar-se com ela e agradecer, ou questioná-la e tentar compreendê-la para dela poder usufruir na totalidade? Que postura adoptar? Será que há uma certa? Sobre uma coisa não há dúvida, qualquer uma das posturas é profundamente humana (não deve ter levado muito tempo ao leitor a identificar-se com uma ou outra), e tal como em qualquer empreendimento humano, as motivações prendem-se entre a luz e a escuridão. No caso de Franklin, é a insegurança de que o enorme amor que dedica à sua mulher não seja correspondido na mesma medida, observando a busca incessante desta por sentido como uma declaração de que ele não é suficiente. No caso de Irene, é a culpa que a atormenta por considerar que falhou como mãe face ao suicídio do filho e a esperança de encontrar respostas para essa dor incapacitante.
À medida que a série avança, este desfasamento entre posturas antagónicas torna-se insuportável, culminando no momento em que um parte (Irene) e o outro fica (Franklin). O não contentamento da alma humana, exacerbado pelos infortúnios da vida e a sua aparente contradição com a beleza observada, é catalisador para o casal York da mesma maneira que o é para qualquer um de nós (independentemente de termos um portal no quintal, ou não). A resposta de um e outro parecem insuficientes. Por um lado, direccionar os desejos imortais da alma a uma pessoa, quem quer que ela seja, é injusto, porque esta nunca irá cumprir com as expectativas, o que acabará por ser uma fonte de ressentimento. Ao mesmo tempo, a busca feita em isolamento, desprovida de relacionamento, é irremediavelmente infrutífera. O casal York, mais para a frente, encontra o início de uma solução, tomando o seu amor como reflexo daquele mistério e apoiando-se no primeiro para desvendar o que é desvendável e para aceitar como inalcançável o que está para além do horizonte mortal de inteligibilidade.
A pergunta, no entanto, mantém-se: o que fazer quando confrontados com a beleza?
Tiago Rocha e Mello
Sebastião da Gama: As Tormentas da Boa Esperança
Um livro incontornável para aqueles que são – ou que desejam ser – professores é o Diário de Sebastião da Gama. Escrito pelo poeta da Arrábida a conselho do seu orientador de estágio, o Dr. Virgílio Couto, foi um registo quotidiano das suas aulas durante o tempo em que lecionou em Lisboa, na Escola Industrial e Comercial Veiga Beirão (entre janeiro de 1949 e fevereiro de 1950), e alguns poucos dias na Escola Industrial e Comercial de Estremoz (em outubro de 1950). Nele, podemos ver como ensinava, como eram as suas aulas, como era a relação com os seus alunos. Impressiona, de facto, o professor que ele era. Também impressiona a relação estreita, afirmada e desejada entre a sua vida (registada parcialmente pelo seu diário e pelo testemunho de quantos o conheceram) e a sua poesia.
Um livro incontornável para aqueles que são – ou que desejam ser – professores é o Diário de Sebastião da Gama. Escrito pelo poeta da Arrábida a conselho do seu orientador de estágio, o Dr. Virgílio Couto, foi um registo quotidiano das suas aulas durante o tempo em que lecionou em Lisboa, na Escola Industrial e Comercial Veiga Beirão (entre janeiro de 1949 e fevereiro de 1950), e alguns poucos dias na Escola Industrial e Comercial de Estremoz (em outubro de 1950). Nele, podemos ver como ensinava, como eram as suas aulas, como era a relação com os seus alunos. Impressiona, de facto, o professor que ele era. Também impressiona a relação estreita, afirmada e desejada entre a sua vida (registada parcialmente pelo seu diário e pelo testemunho de quantos o conheceram) e a sua poesia.
O Diário termina com a seguinte frase: “E aqui estou novamente na Arrábida, a firmar as forças e cheio de confiança, de serenidade, de sonho. Cabo da Boa Esperança!
A última frase do Diário de Sebastião da Gama é precisamente o nome do cabo que mudou de nome: de Tormentas passou a chamar-se Cabo da Boa Esperança. Em 1488 foi descoberto por Bartolomeu Dias e recebeu do rei D. João II, o Príncipe Perfeito, o seu novo nome. “Partidos dali, houve vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada.”2. Aquilo que inicialmente era tormentoso, passou a ser sinal de uma boa esperança, de uma promessa prestes a cumprir-se, da proximidade da meta, do destino. Em bom rigor, o cabo não mudou. As tempestades e os perigos continuaram a existir. No entanto, há algo de profundamente poético nesta decisão de D. João II ao renomear o cabo. A poesia desperta um novo olhar sobre as coisas – dá-lhes um novo nome –, não um novo aspeto, mas um novo significado.
Dar um novo nome às coisas vem de um novo olhar que se tem sobre elas e que, para Sebastião da Gama, era o papel do Poeta
Era nas suas mãos que terminavam as coisas infinitas e as finitas
O novo olhar é intrínseco ao Poeta:
Teu olhar descansava no do Poeta;
e a poesia das coisas sem Poesia,
que no olhar do Poeta dormitava.
A descoberta e ultrapassagem do cabo permitiu que os navegadores portugueses seguissem a costa africana até à Índia. No ponto em que os oceanos Atlântico e Índico se encontram, um lugar que fascinou e atormentou os reis de Portugal da dinastia de Avis, que alimentou as esperanças de navegadores e marinheiros, o tormentoso cabo deixou de perturbar os sonhos dos portugueses, como um pesadelo numa noite de sono atribulada. Também Sebastião da Gama publicou um livro de poesia com o título Cabo da Boa Esperança (1947), que é também o título de um dos seus poemas. Nesse poema diz que:
Nunca fala da Vida
Sem que entristeça...
O mesmo acontecimento pode ser razão de tormenta ou esperança, de tristeza ou de alegria. Nada muda na aparência da realidade, mas pode mudar a essência do olhar. Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida, tinha muito claro que apenas a poesia podia fazer mudar o olhar, tal como uma janela que se abre permite entrar a luz e ver a paisagem:
Que linda janela
Que é a minha alma!
Não!, linda não é ela:
Lindas são as vistas
Que se avistam dela.
Poderíamos dizer que a beleza está nos olhos de quem a vê. Reformulando, a beleza está nas coisas para aqueles que sabem olhar. A poesia investe a vida, transforma as tormentas em boa esperança; há um ponto em que os versos do poeta tocam e se misturam com a vida do professor, tal como as águas do Atlântico se misturam com as do Índico, há um ponto em que aquilo a que se chamava tormenta, passa a chamar-se Boa Esperança.
Ricardo Formigo
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9ª Edição
Maternidade
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8ª Edição
Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior, de Maurice Ravel
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7ª Edição
Grandiosidade e Grandeza
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6ª Edição
A esperança é a última a morrer
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5ª Edição
Às nossas queridas mães
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4ª Edição
Wonder: cada pessoa merece ser admirada e tem uma missão a cumprir
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3ª Edição
Um olhar auspicioso
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2ª Edição
A Beleza que não morre
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1ª Edição
Os homens são como os rios