Vida
Introdução:
Nesta edição, trazemos a história da Rosarinho, uma jovem estudante de Design que viu a sua vida mudar inesperadamente por causa de uma doença grave. Quando tudo parecia encaminhado para que pudesse realizar o seu sonho de estudar no estrangeiro, foi confrontada com desafios de saúde que a obrigaram a reformular os seus planos e prioridades. Ao longo de um caminho exigente, marcado por tratamentos e momentos de incerteza, encontrou na fé em Deus, na família e nos amigos um apoio fundamental. Nesta conversa, partilha conosco o seu testemunho, mostrando-nos como aprendeu a valorizar a presença dos outros, como entendeu a importância de pedir ajuda e como descobriu a força que nasce das relações humanas.
ENTREVISTA
A força da presença: um caminho acompanhado
Antes de mais, Rosarinho, muito obrigado por teres aceitado o nosso convite para esta bela conversa. De maneira introdutória, pedia que te apresentasses e nos contasses um bocadinho da tua história.
Eu sou a Rosário, há pessoas que me chamam Rosarinho também. Tenho 22 anos e sou de Lisboa. Tirei o curso de Design e Comunicação e neste momento estou num mestrado de Design e Interação. Vivo com os meus pais, tenho uma irmã e agora um sobrinho também.
Por que estás a estudar Design?
Eu estudei no Colégio de Santa Doroteia e estive em Artes, no secundário. Estando em Artes, fui conhecendo a área do Design, e depois arrisquei estudar Design na faculdade. Na altura, era aquilo em que eu me via mais, mas o primeiro ano foi um choque de realidade. Os professores eram exigentes e não gostei muito, ao princípio. No entanto, continuei e depois acabei por gostar! Agora não sei como será o futuro.
Durante o tempo da faculdade, houve uma mudança na tua vida, uma mudança que abanou as tuas certezas sobre o futuro, tornando o teu caminho menos regular. Podes partilhar um bocadinho sobre isso?
Em 2024, eu estava no último ano da licenciatura e tinha os meus planos para o futuro, queria fazer um mestrado, ir para fora do país, etc. De repente, foi-me detetado um nódulo e fui operada para tirar aquilo. No secundário, eu tive uma colega que foi operada por causa de um tumor benigno no peito, por isso, como os resultados foram inconclusivos durante vários meses, pensei: “Ok, sou operada e sigo com a minha vida, está tudo bem”.
Comecei então a fazer os meus planos, candidatei-me a um mestrado em Itália, e segui com a minha vida normal. Claro que eu sabia que havia a possibilidade de ter algo que fosse mau, mas não dei muita relevância. No entanto, a certa altura, houve uma reviravolta: um médico ligou aos meus pais a informar que as notícias não eram boas. Eu estava com a minha irmã e foi ela quem me disse...
O que é que mudou com essa notícia?
Eu percebi logo o problema que tinha, não havia como negá-lo: se as notícias não eram boas, então o tumor era maligno. Sabia mais ou menos o que era e o que estava a acontecer, mas não o que era suposto fazer. Foi um processo longo até perceber quais seriam os tratamentos porque eu não tinha um cancro regular, era um sarcoma muito raro. Demorou ainda algumas semanas até se encontrar a abordagem terapêutica adequada. Uma das coisas que mais me custou foi não poder ir para Itália estudar no Politécnico de Milão (ou pelo menos o adiamento deste plano, se Deus quiser que no futuro se abram essas portas). Tinha-me preparado durante quase um ano inteiro para poder concorrer, já estava tudo pago e pronto. Não foi nada fácil desistir de um sonho para o qual já tinha criado expectativas, demorou algum tempo até aceitar que não iria.
Como foi passar pelos tratamentos?
Eu comecei os tratamentos no início de setembro de 2024 e acabei-os em julho de 2025. Houve várias fases e fiz três tipos diferentes de tratamento. Alguns deles era muito longos, chegavam a ser dez horas por dia. Nessa altura, fazia uma semana de tratamentos e depois ficava duas semanas a repousar em casa, cheguei a estar várias vezes internada. Graças a Deus nunca fiquei muito mal com os efeitos da quimioterapia, mas ao longo do tempo a minha resistência foi diminuindo e ia ficando cada vez mais cansada. Mesmo agora, que a doença está controlada e sob vigilância, fazer desporto custa fisicamente. Tenho consciência das minhas limitações e que, embora já consiga fazer quase tudo que fazia antes, tenho de ter mais cuidado. Apesar disto tudo, sempre me senti como uma rapariga normal, apenas tinha uma ocupação diferente.
Como é que isso era possível, com um diagnóstico tão pesado?
No geral, não sou muito pessimista na vida, e acho que nestes momentos se tem uma graça de Deus especial, pelo menos foi isso que senti na altura. Eu sabia que era aquilo que Deus me pedia, e então era aquilo que eu tinha de fazer, era ali que eu tinha de estar. Agora, olho para trás e penso: “Que raio de coisa que eu passei…”. Ainda assim, tenho de dizer que o meu ânimo nem sempre foi o mesmo. Em particular, quando tive uma recaída, recebi um segundo diagnóstico que me doeu muito mais do que o primeiro. Nessa altura, o meu ânimo foi muito abaixo… Felizmente, agora
Quando recebeste esse segundo diagnóstico, quais foram as grandes colunas a que te agarraste?
Acabei por ir buscar forças às mesmas colunas do primeiro diagnóstico. Eu acredito em Deus, por isso a minha fé foi certamente uma grande coluna. No início, pensei “Porquê eu? Porque é que me tiraste os sonhos e os meus planos?”, mas depois percebi que tinha de seguir em frente e tratar do cancro. A outra grande coluna foi a minha família e os meus amigos, que sempre procuraram acompanhar-me de perto. Claro que houve momentos em que precisava de estar sozinha e muitas vezes não exteriorizava aquilo que sentia. No entanto, eu sempre gostei da companhia das pessoas, mesmo durante esse período, e cheguei a fazer muito jantares lá em casa! Felizmente, manter o contacto com as pessoas nunca foi um problema.
Houve algum período em que não pudesses ter visitas?
Como já referi, fui várias vezes internada, por isso a quantidade de visitas dependeu dos serviços em que estive. Durante o meu primeiro tratamento, acabei por ficar internada e as visitas eram mais limitadas. Depois disso, não tive muitas restrições. Talvez por ser jovem, eles davam um desconto, e deixavam-me ter mais visitas do que o normal. Ainda assim, quando tinha operações, só os meus pais é que podiam ir lá ver-me.
Há alguma palavra ou algum gesto que te tenha ficado na memória?
Um gesto em concreto, honestamente, não. Mas guardo sempre na memória o trabalho das enfermeiras, quem cuidou de mim nos internamentos, as pessoas que me vieram visitar, e a presença constante da minha família. Eu guardo sempre na memória esses gestos, que para mim significaram mais do que as palavras, porque não havia grande coisa que se conseguisse dizer com palavras.
Continuavas a ter aulas, ou fizeste uma pausa?
Comecei por me inscrever num mestrado cá em Lisboa, ao mesmo tempo que estava inscrita num outro em Milão. Claro que não fui para Milão, mas ainda tentei fazer algumas cadeiras em Lisboa, só que não deu, tive de desistir logo no início. Mais tarde, quando já conseguia conduzir, ia à faculdade só para ver as minhas amigas.
Que coisas boas retiraste deste tempo?
Eu retirei muitas coisas boas! Acho que uma das principais foi perceber a importância das pessoas. Percebi especialmente a importância de os meus pais estarem presentes e de tudo aquilo que faziam (e fazem) por mim. Também não consigo falar de coisas boas sem falar da minha fé: saí disto tudo mais unida a Deus e, para mim, isso foi muito importante!
Olhando para trás, para estes últimos anos, vês alguma coisa que gostasses de ter feito de forma diferente?
Sim! Neste processo todo gostaria, às vezes, de ter sido mais sincera com aquilo que ia sentindo. As pessoas queriam mesmo saber de mim, e eu tinha frequentemente dificuldade em dizer o que é que eu sentia, acabava por preferir guardar para mim. Lembro-me de falar sobre isto com uma amiga minha e de ela me dizer que, na altura, teve muita dificuldade em ajudar-me porque eu não dizia o que estava a sentir. Acho que ela tem razão, às vezes eu não dizia nada, era preciso as pessoas puxarem um pouco por mim, para que falasse. Não sei se fiz necessariamente mal, mas se me tivesse aberto mais, teria sido bom. Penso que isso me teria ajudado a mim, e que teria ajudado também a nossa amizade.
O teu olhar sobre as coisas comuns, do dia a dia, mudou? Aproveitas as coisas de forma diferente?
Honestamente, não sei. Não me levem a mal, mas acho que essa questão de passar a ter uma visão diferente é um bocado um clichê. Eu não estou sempre a pensar no que tive... Vivo a minha vida e sigo em frente! O que dirias a alguém que esteja a passar por uma situação semelhante à que passaste? Às vezes penso nisso, no que diria a outra pessoa, mas mesmo já tendo passado por essa situação, saber o que dizer nunca é fácil. Talvez diria a essa pessoa para não guardar tudo só para si. Conheci muita gente que vivia a situação sozinha: ou por escolha, ou porque realmente não tinham ninguém que a acompanhasse. Acho que é muito mais difícil viver sozinho uma situação destas. Se fosse alguém que eu conhecesse, talvez me disponibilizasse para ajudar. Diria simplesmente: "Se quiseres, se precisares de alguma coisa, liga-me".
Também acho importante transmitir que não é preciso ter medo do tratamento. Apesar de ser um tratamento agressivo, em princípio é algo que passa. Claro que há situações e situações mas, em princípio, é uma coisa temporária. Antes de começar os tratamentos, eu estava com muito medo, nem sei se dormia bem na noite anterior com todo o nervosismo. Depois surpreendi-me, afinal não foram tão maus como eu pensava.
Por fim, o meu médico disse-me que, muitas vezes, aquilo que mais importa é o que está dentro da cabeça, é o que se pensa… Ele acredita que o estado de espírito influencia os resultados, e penso que tem razão. É importante - mesmo que de forma forçada, ou com alguém a forçar -, pensar de forma positiva. É difícil, mas faz toda a diferença.