Vida

Ver nas Entrelinhas

Introdução:

Ricardo Roque Martins, nascido em 1973, é casado há quase 27 anos e tem 7 filhos. Desde cedo com uma sensibilidade grande para a beleza, licenciou-se em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, e em 2003 fundou o atelier de arquitectura OCO. A sua paixão pela arte acabou por se fundir com aquela que desenvolveu pelo ensino, materializando-se num Mestrado em Ensino Artístico e num Doutoramento na mesma área, que se encontra actualmente a completar na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. A sua crescente dedicação à educação nasceu do pedido de um amigo para dar algumas horas de aulas no Colégio Planalto, onde tinha sido aluno. O cargo temporário transformou-se em permanente e de professor passou a director, função que tem desempenhado desde 2024. Ao longo dos anos tem tornado pública a sua visão da arte e da educação, tendo escrito e ilustrado vários títulos dirigidos tanto a públicos mais infantis, como a estudantes universitários.

ENTREVISTA

A Beleza Invisível

Quem o conhece sabe que o Ricardo pautou toda a sua vida pelo tema da beleza. Então o que é que o motiva nesta busca perante o Belo num mundo onde o valor das coisas é normalmente associado à sua utilidade?

Eu começaria por uma resposta talvez um bocadinho em contra-sentido. Nós, hoje em dia, vivemos no tempo do deleite estético, ou seja, de uma certa exuberância estética, mas eu diria que a beleza deve ser procurada não absolutamente, não de forma explícita, naquilo que nós encontramos na nossa visualidade do mundo. Refiro-me àquilo que é visual e que é patente e que se apresenta aos nossos olhos, aquilo que alguns artistas chamavam de uma certa “beleza retiniana”, mas mais do que isso, a encontrar no entretexto, nas entrelinhas, a beleza que está disponível no mundo, mas não está tão óbvia assim. Eu diria que a tradição cristã deu-nos essa profundidade em relação à forma como tocamos a beleza: nós somos aqueles que veem aquilo que não está à vista. O teórico Georges Didi-Huberman dizia: “Eu não consigo perceber, esta gente corre para o sepulcro, não vê lá ninguém e acredita”, ou seja, o que é que passa pela cabeça destes senhores, para durante dois mil anos acreditarem sem verem nada? E isso é o grande drama do materialismo cultural, é não conseguir perceber onde é que está a nossa visualidade.

Numa das obras da série das Crónicas de Nárnia, de C.S. Lewis, há uma altura em que os protagonistas chegam à ilha dos Tontópodes. Estes são anões, mas que estão invisíveis, e que por isso se apresentam como sendo grandes e ferozes para amedrontar os protagonistas. Posteriormente, é encontrado um livro de feitiços que torna os Tontópodes visíveis, expondo a sua verdadeira natureza pequena e ridícula. É-nos depois revelado que estes não sabiam ler e que por isso nunca tinham quebrado o feitiço eles próprios. E eu não sei o que é que o C.S. Lewis quis dizer com isto, mas a mim sempre me pareceu que a capacidade que nós temos para transformar as coisas invisíveis em visíveis pressupõe saber ler. E saber ler não é o saber enciclopédico, é saber ler este entretexto, é saber ler aquele que não está para ser lido. É saber ler o outro também, se calhar. Nós [cristãos] temos uma maneira particular de saber ler. E portanto, nós somos aqueles que, quando dizemos coisas, fazemos as coisas acontecerem. É isso que fazemos quando rezamos a Nossa Senhora.

Quando rezamos, nós estamos a ler o livro dos feitiços. Nós estamos a pedir para “ler”, para tornar as coisas invisíveis visíveis. E ai de nós se perdermos esse talento, que nos é transmitido há dois mil anos.

Significa que essa beleza que busca também está muitas vezes invisível. E pode ser ao nosso

toque que ela se poderá tornar visível?

 

Eu diria que sim. Tem de haver uma disposição, tem de haver uma procura, disso não tenho dúvidas. Tenho, no entanto, dúvidas que esta superabundância de coisas que nos seduzem hoje seja a beleza. Nós procuramos encontrar as ideias do passado neste registo pós-moderno, e normalmente não as encontramos, é a contradição. Nós próprios cristãos temos alguma dificuldade em sobreviver neste registo e não percebemos o que é isso da beleza.

E depois há outra coisa que penso que nos acontece a todos, mas que nós às vezes não estamos completamente despertos para esse aspecto, que é Deus comunicar-nos coisas belas com o seu oposto. E muitas vezes nós criticamos a arte contemporânea, porque alguns artistas desesperados não têm nada para nos dizer. Eu acho que os artistas desesperados têm coisas muito importantes para nos dizer.

Há dois exemplos que eu uso sempre quando me perguntam o que é a beleza hoje em dia no mundo.

E eu sinto que quando vejo Francis Bacon, ou quando vejo Ana Mendieta; são artistas que nos provocam uma certa impressão, de forma crua, comprometem às vezes algum desespero e algum horror. E lembram-me que os três pastorinhos se foram convertendo, ou percebendo o que é que era Nossa Senhora e a mensagem que Nossa Senhora lhes estava a transmitir, mas que há um momento crucial em que a vida lhes dá um soco. É quando Nossa Senhora lhes mostra o Inferno.

E é nessa altura que eles percebem. Ou seja, através não da beleza, mas do horrível, eles percebem. E, portanto, eu acho que o século XX comunica-nos coisas ótimas através de um certo desespero dos artistas.

E, por isso, eu acho que cada coisa má que nos acontece, cada coisa má que nos é apresentada neste mundo, é uma oportunidade óptima para sentirmos saudades do “colo quentinho da nossa mãe”. E, lá está, tentar olhar para o invisível e chegar à beleza. E chegar à beleza, sim.

A arte como mecanismo de redenção

Nos seus ensaios, “E Adão começou a pintar” e “Educar Caim”, o sentimento de revolta que caracteriza a arte contemporânea é interpretado como o reconhecimento de uma queda e a expressão de saudade de uma realidade perdida. De que modo é que o Ricardo faz esta experiência no mundo da educação?

 

São ensaios que têm de ver justamente com a educação e com a educação artística em particular. Nós aqui [Colégio Planalto] educamos rapazes, e reconhecemos um desespero. Os rapazes têm tendência para ser primários, para ser pouco maduros, para ser destemperados, ousados, aventureiros — tudo isto junto dá muitas asneiras, dá às vezes uma vontade de não ter paciência para eles. O ensaio “Educar Caim” vem justamente chamar-nos a atenção de que, da mesma maneira que há uma altura em que Deus diz a Caim: “o pecado deita-se à tua porta, tu tens de ter cuidado”, eu penso que muitas vezes, em relação aos rapazes, eles têm de ter cuidado. Ou seja, têm uma predisposição para a asneira, para a confusão, aliás, eles têm muito mais propensão para desistir da escola, para o suicídio, têm mais dislexia… Pouca gente saberá isto. Vivemos num mundo em que tudo é factor de inclusão, tudo é factor de uma certa condescendência, mas não admitimos que há um grande grupo que está completamente excluído do sistema educativo. Olhamos sempre para os rapazes com uma certa falta de paciência para as suas asneiras e para as suas destemperanças. E por isso o artigo “Educar Caim” faz uma junção entre esta predisposição que os rapazes têm para a asneira e uma certa insurgência que os artistas também têm.

O que aconteceu a Caim é que ele foi desterrado e foi fundar a primeira cidade. Ele foi o primeiro urbanista, e os filhos dele eram tocadores de harpa, eram metalúrgicos e, por isso, eu diria que nós não só somos filhos de um assassino, mas somos filhos de artistas.

E, portanto, perceber que tudo isto nos deveria inspirar uma reflexão engraçada: estes miúdos só precisam que se lhes dê um bocadinho de carinho, porque não são piores do que nós sempre fomos. Apesar desta natureza que nós temos, insurreta e com uma predisposição para a desobediência, os nossos pais e os nossos professores, perderam tempo connosco e perdoaram-nos a quantidade de vezes que fizemos mal. Por isso, é olhar para os rapazes agora e ter essa benevolência e não incorrer numa espécie de predestinação calvinista que tu és mau e assim serás.

 

Esta pretensão de um homem poder ser redimido e encontrar, por fim, um objeto para o seu vazio existencial tem algum fundamento, ou é apenas um mero desejo?

 

Começa numa conjectura, de facto. Ou seja, houve uma altura em que me pareceu evidente que a arte não existe no Céu e não faz sentido existir. Da mesma maneira que eu, quando estou com a minha mulher, não preciso da fotografia que tenho na carteira. Ou seja, a arte como representação, a arte como tornar presente uma realidade perdida remete-nos, por um lado, para uma coisa que aconteceu nos tempos primordiais, e por outro lado, lembra-nos que é possível voltarmos a uma amizade perdida e, portanto, lembra-nos que aconteceu e pode voltar a acontecer. E é aí que reside a grande esperança da arte. Os artistas, que eu acho que têm uma especial premonição disto tudo, são pessoas que, por alguma razão, têm uma sensibilidade muito grande para tentar, através de meios materiais, ir buscar ao fundo da alma essa memória existencial, esse tempo do Homem, do tempo em que o Homem ainda não era caído. E, portanto, vivemos dessa memória. O perigo que existe, como dizia Chesterton, não é se nós nos lembrarmos que nos esquecemos da imagem de Deus, isso não é grave. O que é grave é se um dia nos esquecermos que nos esquecemos. Ou seja, se não houver na arte esse sinal, se não continuarmos a ver na arte essa reminiscência, então terá perdido todo o valor e toda a sua razão de ser.

O homem caído precisa da arte para voltar a acreditar, disso eu não tenho dúvidas.

Tenho pena que a forma como a arte é ensinada hoje nas escolas, e até de certa forma nos museus, que não nos dirija a essa perspetiva teológica. Tenho pena que se tenha perdido completamente essa ideia.

 

O papel do professor passa naturalmente pelo contacto com os alunos. Qual a importância que dá a esta vertente humana e de que modo é que ela contribui para a redenção, não só do aluno, mas também até do próprio professor?

 

Há bocado eu fiz a sobreposição entre o modo como eu olho para o crescimento dos meus alunos e o pecado original, que, aliás, é uma discussão justa e oportuna. Hoje em dia temos uma consciência de que a liberdade é fazer tudo o que nos apetece, e portanto, a liberdade é vermo-nos livres de todos os empecilhos. Todas estas prisões que temos vêm desse acidente primordial que nos aprisionou e que nos deixa com tanta dificuldade de achar o que é livre e o que é bom, que passa pela negação das coisas que temos instinto de fazer. E isto é uma discussão que tem de ser tida outra vez.

O que há hoje em dia é a escola efusiva, a escola de que podemos fazer o que nos apetece, e se não o fizermos, se não seguirmos este instinto, então a escola não está a ser boa para nós. Portanto, a escola baseada na antropologia cristã, que é a proposta mais difícil e mais sinuosa, está em crise, até inclusivamente nas escolas de matriz cristã. Porque também nós, às vezes, somos seduzidos pela outra escola, onde parece que os miúdos são naturalmente bons, que tudo o que fazem, fazem bem, onde o professor é amigo deles e não tem nada para lhes corrigir nem para educar. É preciso até explicar isto aos pais, porque para serem parceiros da escola, os pais também precisam estar alinhados nesta ideia da educação. E penso que vivemos uma crise profunda na educação porque não nos alinhamos sobre este objetivo.

A ideia de nos propor desafios, desafios às vezes difíceis, de termos de despender esforço para conseguir as coisas, termos de obedecer a contragosto, essa é a escola que neste momento não existe. É a escola do pecado original.

E temos de voltar a ela.

Beleza escondida à vista de todos

Iria agora voltar à questão da beleza citando aqui uma frase do Papa Bento XVI, que em 2010 deixou ao mundo da cultura portuguesa um desafio — e passo a citar: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.” Sendo o Ricardo arquiteto e professor de educação visual, a sua vida profissional está muito rodeada da arte, naturalmente. No entanto, consegue também encontrar beleza nas pequenas coisas do dia-a-dia?

 

Absolutamente. Achamos no mundo essa beleza que há bocado nós dizíamos que estava meio escondida. Estava escondida, estava disfarçada. Estamos sempre à procura de fogos de artifício. Estamos sempre à procura que essa beleza nos seja apresentada com estrondo, porque estamos seduzidos pela novidade. No entanto, essa beleza é-nos apresentada sempre de forma discreta no nosso dia-a-dia. E, portanto, nós não estamos preparados para o aborrecimento de chegarmos a casa e termos a mesma coisa de sempre. Nós estamos preparados é para o deslumbre, estamos preparados para o espanto de coisas absolutamente novas. E eu diria que se for para isso, nós não precisamos ser educados para nada, porque somos tão estimulados, e de forma tão violenta, as imagens atuam sobre nós de forma absolutamente furiosa e retiram-nos qualquer vontade de escolha e de deslumbre. Nós perdemos a soberania sobre as imagens; essas imagens é que têm soberania sobre nós. E, por isso, temos de sair desse mundo que atua sobre nós de forma mais ou menos inconsciente, e temos de voltar àquilo, aí sim, que é a nossa escolha, que é essa pequena beleza do dia-a-dia, que nos transforma, que nos acolhe. Nisto consiste o grande desafio: não vulgarizar e deixar de estimar estas coisas pequeninas por vermos todos os dias, mas transformá-las no centro da nossa vida, numa coisa de importância extraordinária.

 

E na família?

 

A família é um bocadinho tudo isso: chegamos a casa e temos o transtorno dos trabalhos de casa, dos banhos, da comida, de ficar a ouvir a mulher a dizer como correu o dia que, quer dizer, não é muito diferente de como correu no dia anterior, mas e se nos espantarmos com cada coisinha que se diz outra vez? Isto é um exercício. E, portanto, chegarmos ao final de cada conversa destas e sentirmo-nos agradecidos não é só uma escolha, é muito mais do que isso. No final, por exemplo, quando os filhos estão mais crescidos e começam a passar menos tempo em casa… Quer dizer, que saudades do tempo em que diziam coisas repetidas. Que saudades de os encontrarmos todos os dias em casa. Isto enchia-nos a alma, sim. E em oposição, todo o deslumbramento pós-moderno, toda a fúria das imagens, que é difícil de resistir. É absolutamente difícil. E às vezes até se confunde, porque se mascara, não é?

Há uma certa condescendência que fazemos com o mundo pós-moderno. Nós próprios jogamos o jogo, e de repente não percebemos o jogo das famílias felizes. Quem queira saber como é que é uma família, não é ali que vai encontrar.

15 de abril de 2025

Entrevistadora: Dora Isabel Rosa

Redação: Tiago Rocha e Mello